Coisa de momento

eu viajo pra dentro do país com sebastiana todo ano. lá eu vejo o mato, bebo cerveja de baixa qualidade e faço outros clichês. 

é noite, é sereno e faz frio. a casa é pequena e bem arrumada. tudo nos seus lugares: copo de cabeça para baixo e botijão de água com toalha bordada. no telhado tem frestas, uns buracos e, por isto, vejo o céu. 

mas no caminho pra chegar sertão, eu penso em marta. penso nela e nos seus dentes pequenos.

um dos seus caninos é quebrado, outros dois dentes da frente trincados, serrados, mas brancos. as pessoas acham eles "errados", e são mesmo, mas também possuem sua beleza. como pode ser errado e bonito? a verdade é que são são detestavelmente lindos.

eu já fui casade com marta. hoje somos mais que amigos, divorciados. eu admiro ela: pensamento e estética. quando nos separamos eu tive uma epifania ao contrário. não aceitei o término. chorei por 27 dias e uns quebrados. os quebrados duraram mais 4 semanas. foi estranho, mas pertinente.

depois conheci outras pessoas em praças, festas, casa de amigos, bares, apps, sim, principalmente, em apps e só depois encontrei sebastiana, no elevador do meu prédio. não soube decodificar: duas pessoas que nunca se viram, no mesmo m², em silêncio, trocando olhares, sob luzes de led, se encarando. foi erótico até surgir um está quente lá fora, né?

nunca achei que uma conversa de elevador fosse dá em um casamento de 18 anos organizado.