as gay as bi as trava e as sptão

algumas questões:

1. ao falar de “reversão sexual” partimos de uma visão equivocada da sexualidade humana como se a pessoa “nascesse hétero e depois ela desviasse para outra sexualidade”. tal pessoa “virou gay”. o movimento da “reversão” remete a algo que volta para a “origem”, para o “normal”, para o “padrão”. quando, na verdade, não existe uma orientação sexual padrão. todas estão no mesmo plano. acontece que uma é reconhecida/aceitada pela sociedade e as outras não. 

2. a maioria das pessoas ao pensar que podem ser homossexuais se sentem constrangidas. tem medo. vergonha. sentem culpa. arrisco dizer que, em um primeiro momento, ao perceber tal característica, ninguém sente orgulho, mas incômodo. seria interessante pensar: de onde vem este desconforto? 

3. é mais fácil movimentar o discurso por afetos que paralisam o sujeito (medo, por exemplo) e que incitam ou estimulam a homofobia para não ter que lidar com ela. do ponto de vista prático nunca foi comprovado cientificamente que reverter a orientação sexual de alguém é impossível. ao contrário: as pessoas que se submetiam a este tipo de tratamento tinham mais depressão, ansiedade e grandes chances de cometer suicídio, além de desenvolver doenças mentais. sabemos que existe um contexto social hostil, que segrega as pessoas: a sociedade empurra o sujeito para o gueto e depois ridiculariza o gueto. este gesto não pode ser minimizado. 

4. normalmente demanda tempo para um lgbt identificar de onde vêm o incômodo que ele sente. decodificar estas coisas, os fatores internos e externos que compõe o contexto. são justamente estes fatores (medo, violência, distorção, preconceito, etc) que podem se elaborados na terapia. estes fatores também devem ser conversados na sociedade. a arte é um campo fundamental para isto, porque além de pertencer ao universo da subjetividade (muita vezes escanteado por uma inteligência lógico-matemática), ela também promove discussões em assuntos que ainda são tabus.

5. em terapia, independente da linha (junguiana, freudiana, lacaniana, etc) e do tipo de profissional (psicólogo, psiquiatra, psicanalista) qualquer pessoa pode falar sobre orientação sexual, elaborar esta questão (determinar os seus limites, entender até onde ela suporta falar, viver sua orientação sexual). não precisa de uma liminar para isto. 

6. procurar ajuda para se “reorientar de forma voluntária” não é algo simples, espontâneo, diante do contexto em que vivemos e mesmo que uma pessoa adulta tenha tempo e dinheiro para investir na sua "reorientação sexual", ela não vai funcionar. porque não é um problema de dedicação, uma questão monetária, de livre arbítrio (vontade própria). mas uma questão ética mesmo: não enganar as pessoas dizendo que elas podem ser "reorientadas sexualmente”. falar isto, além de ser uma distorção da realidade, é uma atitude mau caráter.

7. um fato: não existe psicologia-cristã. pode existir pessoas que tem formação em psicologia e que são cristãs. mas pessoas que usam a psicologia como ferramenta para propagar sua fé não pode ser considerada uma profissional da área. foi inclusive por isto que rozangela justino teve seu registro de psicóloga cassado em 2007/09.

8. uma pessoa ciente do seu desejo não se torna hétero ao nega-lo. o sujeito pode ser "lido" como hetero na sociedade e não sofrer preconceito, descriminação, violência. mas sua orientação sexual continua lá, em curso.