Relatos quentes de uma viajem inusitada

A viajem ao centro do útero começou quando eu via minha mão e você, embassada, atrás, fora de foco. Foram quarenta minutos de conversa, seguidos de sete doses anesésicas de uísque: quatro minhas, três suas. Depois disso, meu Pol esquerdo foi encostando na sua orelha, aí, veio o seu Pol direito suave na minha boca, quando, num momento esperado e promovido a beijos, me encontrava em seu umbigo. Euforicamente e nem um pouco tímido, de uma maneira rápida, o Médio - que, na verdade, é o maior de todos - estava... Ou melhor, não estava; estava dentro. E fora. E dentro. Até que, encantado com seu novo habitat, levou seu vizinho, Indi, à sua nova casa. Enquando os dois amigos aproveitavam a farra numa danceteria com luzes vermelho-rosadas, o Anelar, coitado, estava sofrendo, imprenssado entre suas deliciosas paredes epteliais. Indignado ao ver tal sitação, o Médio, numa atitude nem um pouco egoísta, levou o amigo à loucura frenética da dança das minhocas na tal danceteria com luzes vermelho-rosadas. Uma farra!

Nessa hora, estava calor e os três melhores amigos, suados e ensaboados, enfim, pararam para mais um momento anestésico de Johnny Walker. A festa estava longe de acabar e os três, continuaram sua caminhada pelo canal uterino, mas, desta vez, os outros dois vizinhos, Pol e Mindinho os acompanharam. Eram os cinco juntos: Polegar, Indicador, Médio, Anelar e Mínimo - ou Mindinho, para os íntimos. Eles dançavam, pulavam e se mexiam numa velocidade próxima a da luz, e, sem nem esperar ou perguntar, foram-se emburacando mais e mais até que toda a cidade estava na festa. Quando digo toda a cidade, me refiro à Sra. Mão, casada com Sr. Braço, Sr. Ombro, Sr. Tronco, Irmãs Pernas e os gêmeos Pés.

Estava todo em você, na sua festa, curtindo suas luzes vermelho-rosadas, que, na verdade, éram vermelho-marrom-rosadas e lindas, incandescentes, que me tiravam toda a decência. Estava feliz. A festa estava uma loucura naquele ambiente quente de suor e húmido de amor. Era toda minha cidade à procura de novos ares para começar outra cidade, a partide nós... Mesmo anestesiado pelo Johnny, segui caminhando pela busca do ovário. Nem pista. Não estava em lugar algum. Depois de horas, a festa ainda rolava, e, quando minha cidade percebeu que estava encomodando, surgiu um urro desesperador da Sra. Íris: "cuidado, eles estão mandando o Exércitos Vermelho!"

Não era um jogo de War, mas a guerra estava feita. Era um corre corre, uma agonia, um vexame. Todos estavam loucos para ir embora, mas a porta de entrada da cidade era muito pequena para tamanho fluxo de seres querendo sair e a de emergêcia estava longe. Seria necessário andar por toda cidade alheia na direção norte, passar por ambos intestinos, estômago, garganta e sair pela boca: muito complicado! Tirando o fato de que, até todos sairem, mais da metade da minha cidade estaria morta, sufocada pela tal onda vermelha. Portanto, fomos todos em direção a portinha de entrada, e, claro, sendo jorrados por um fluxo semi-aquático de sangue, sour, sabão e sêmem. A mundiça estava exausta.

Mr. D, o último representante da cidade a sair, disse numa entrevista ao JCD (Jornal Corporal do Dia) que chegou a encontrar com o tão desejado útero, mas a visita foi rápida. Só o achou na hora caótica em que a cidade alheia chovia, e, ainda, irritados com a festa, o Exército Vermelho (moradores do campo e militares) se manisfestava para afastar qualquer visitante. O que só acontece uma vez no mês. Pois bem, frustrado, pergunto: será necessária outra festa, outra cidade e mais anestésicos para achar um lugar adequado e formar minha família? (pausa) Enfim, veremos. (Mas, cá pra nós: na próxima, o convidado da noite será José C., porque o Johnny Walker ficou paradão ao invés seguir caminhando.)